A revelação do Globo de Ouro
*Ang Lee, diretor do Brokeback Mountain, o filme dos caubóis gays, afirmou, em seu discurso de agradecimento ao prêmio recebido na última segunda-feira, o seguinte: “I like this kind of movie, because it’s a way to change people’s thinking”. E como, Mr. Lee. Além de melhor direção, a produção recebeu outros prêmios de destaque da noite - melhor filme e roteiro - e o de canção.
O Globo de Ouro é considerado a prévia do Oscar. Mau sinal. Justamente 2005, o ano em que foram vendidos ainda menos ingressos do que nos anteriores. Também pudera: quem pagará de bom grado para assistir a produções que não retratam sua existência e anseios, ou que tencionam revisar/revolucionar a própria cultura americana, transfigurando até mesmo a imagem tradicional (ô palavrinha cada vez mais démodé) do caubói, cujos principais valores – lealdade, coragem, amizade, liberdade e masculinidade – são ultrajantes em nossos dias, pois passam ao largo de bobagens existencialistas, marxistas, freudianas e niilistas, empurradas goela abaixo como dogmas politicamente corretos e relativistas?
Ok, alguns devem estar pensando: mas se foram vendidos poucos ingressos, se a audiência desse filme em especial foi baixa, composta a grosso modo por hollywoodianos e intelectuais engajados, e, portanto, seu apelo popular é quase nulo, por que o alerta? Simples. Uma estratégia visando mudança de comportamento ou opinião nunca vem dos cidadãos, isso até mesmo o diretor taiwanês sabe. São sempre idéias preconcebidas e ruminadas (literalmente) por "mentes brilhantes". E o desencadeamento do processo segue um padrão: algo ofensivo, segundo padrões morais que já deveriam estar ultrapassados, é defendido por especialistas (= engenheiros sociais) respeitados - por outros engenheiros por demais calculistas, mas que ignoram o funcionamento da HP -; de início, o público estranha, fica chocado; entretanto, tal fato é celebrado por simplesmente ter sido trazido à discussão, em um louvor infundado à liberdade de expressão, pluralidade de idéias e todo o blá blá blá do gênero, precisamente o lugar da love story country gay Brokeback Mountain; no processo, a repetição prolongada do assunto polêmico perde impacto e, por fim, não mais surpresas, as pessoas começam a discutir a moderação do extremismo inicial, adquirindo consciência de perspectiva antes ignorada. Mais moderno e corruptor do que esse processo? Difícil.
* Ang Lee dirigiu a maravilhosa adaptação da sempre maravilhosa Jane Austen, Razão e Sensibilidade. Isso foi em 95. É, o tempo passa, o tempo voa.


