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Presente de Natal atrasado

Mais um presente de Natal foi dado a quem busca conhecimento real, não um amontoado de bobagens midiáticas ou verdades relativas universitárias: foi lançada em dvd a aula 14 da História Essencial da Filosofia do professor Olavo de Carvalho, cujo título é "Idéia versus Realidade". A editora também deu início à comercialização das anteriores em dvd: a aula 1, História das Histórias da Filosofia, já está à venda. Para maiores detalhes, clique aqui.

A seguir, como aperitivo, trecho do livro:

"Eu tinha prometido explicar um pouco melhor sobre Santo Agostinho. Havia falado apenas do cogito, comparado com o cogito cartesiano. A principal diferença entre o cogito cartesiano e o agostiniano é que, no cartesiano, quando o eu consciente chega a constatar sua própria existência, a ter a intuição patente, inegável de sua própria existência – ao menos no momento em que está pensando precisamente isto –, ele descobre que desta certeza não existe ponte para nenhuma outra referente ao mundo exterior. Ou seja: da existência do eu não se pode sequer deduzir a existência de um cosmos, quanto mais o edifício inteiro das ciências. E é a isso que Descartes pretendia ter chegado no começo.

Tendo chegado a este ponto, tendo entrado nesta jaula do ego consciente, que tem certeza absoluta de si mas não pode chegar ao conhecimento de nada mais, Descartes não vê outra saída senão apelar à fé, que é o que ele havia abandonado logo no começo. Havia prometido a si mesmo nada aceitar que não fosse demonstrável e, quando chega nesse ponto, para fazer a ponte entre o ego e o mundo exterior, apela à crença bíblica de que Deus é bom e de que, tendo criado o mundo em volta de si, Ele não ia fazer isso com o propósito malicioso de enganá-lo. Por conta da credibilidade de Deus, é aceito o mundo exterior, e então se reconstrói, partindo desses elementos meio racionais, meio de fé, o edifício das ciências.

Em Agostinho não é assim. Nele, a certeza que o cogito tem de si mesmo, em primeiro lugar, não é uma certeza completa, como em Descartes. Para Descartes, o “cogito ergo sum” é o princípio de todas as coisas, é pré-certeza inicial e auto-suficiente. Mas Agostinho observa o seguinte: “Eu sei que existo, eu sei que sou, mas não sei o que sou, ou seja, conheço a minha existência, mas não a minha consistência ou essência, e muito menos conheço o porquê desta existência”. Quer dizer: eu sei que sou, mas não sei o que sou e muito menos o porquê sou. Não obstante, esta certeza – de que eu sei que sou e de que não sei o que sou nem o porquê sou – faz que esse ego agostiniano tenha uma estrutura problemática. Ele não é transparente como o ego cartesiano; carrega em si um forte elemento de mistério, que é um componente interno. Como esse ego sabe que é, mas não sabe o que é nem o porquê é, ele também sabe que ele mesmo não é fundamento de si próprio, pois se descobre como existente, a partir de um certo momento, sem ter tido a menor idéia de onde veio. Então ele sabe que não é autor ou causa de si mesmo.

Nessa estrutura do ego, tal como o vê Agostinho, existe um choque entre uma parte que é auto-evidente e outra parte que é totalmente misteriosa e que requer a presença de uma causa desconhecida. Mas esta causa desconhecida não é interna, pois o mistério da causa do eu faz parte de sua própria estrutura: onde quer que um ser humano descubra que existe, que tome consciência de que existe, ele, na mesma hora, toma consciência do seu caráter problemático e de certo modo incompleto. Ele sabe que aquilo que sabe não é o todo do que ele é. Carrega dentro de si o mistério de sua causa, mas esse mistério é um componente seu, não é uma coisa externa. Isto significa que a pista para Deus, em Agostinho, não é um simples apelo a um elemento externo. A conexão entre o eu e Deus não é externa e mecânica, como no caso de René Descartes. Agostinho chegará a esse Deus mais ou menos por aquela via que, no século XX, será resumida por Paul Claudel, que diz: “Deus é aquele que em mim é mais eu do que eu mesmo, ou seja, é minha verdadeira consistência e a minha verdadeira natureza, a minha verdadeira origem, que subsiste dentro de mim, permanece dentro de mim como um mistério”. Desse ego Agostinho vai tirar ainda umas outras coisas. Ele percebe que, como um componente desse mesmo ego consciente, existe o conhecimento de certas idéias eternas, como, por exemplo, o princípio de identidade ou os princípios da aritmética elementar e da geometria. Sabe-se que um é igual a um e que um mais um é igual a dois, e também se sabe que essas idéias são independentes da existência temporal. Elas são de certo modo eternas e incondicionadas, ou seja, transcendem infinitamente o modo de existência do próprio eu.

O eu consciente sabe que é temporal, sabe que é mortal, sabe que tem uma forma de existência contingente e, ao mesmo tempo, carrega dentro de si não somente o mistério de sua origem, mas também esses conhecimentos que, não estando condicionados à forma de existência temporal do próprio ego, só podem ter origem nesse mesmo mistério de sua origem. O homem sabe coisas que ele, por si, como ser temporal, não poderia saber, e ao mesmo tempo sabe que o que ele sabe de si mesmo está condicionado à sua existência empírica temporal. De onde ele tirou essas idéias eternas? Só pode ser da parte desconhecida, e essa parte desconhecida também não é totalmente desconhecida, porque algo de Eternidade se conhece.

[Aluno: Você pode dar alguns exemplos dessas coisas que não teriam como ser conhecidas apenas por suas existências temporais?]

Todos os princípios da lógica, o princípio de identidade, o princípio de não-contradição, o princípio do terceiro excluso. Como é que se consegue compreender a aritmética elementar? Se não se souber que um número é ele mesmo, ou que uma coisa é ela mesma, não se consegue fazer nenhum raciocínio aritmético, nem o primeiro, nem o mais elementar deles.

[Aluno: E isso não tem como ser compreendido na própria existência temporal?]

Não, porque não se encontrará nada na existência temporal que permaneça exatamente como é. Tudo na existência temporal é uma mistura de ser e de não-ser. O que é a transformação temporal? São coisas que não existiam e que passam a existir, e outras que existiam e passam a inexistir. E tudo o que você vê em torno, absolutamente tudo, é assim; você não encontra uma coisa que tenha entrado na existência no primeiro dia e que continue lá imutavelmente a mesma. Isto significa que, na esfera temporal, você só tem experiência de dados temporais; no entanto, não conseguiria nem apreender os primeiros elementos de aritmética se não tivesse a idéia da identidade. De onde você a tirou?

[Aluno: Não poderia nem perceber que as coisas mudam, pois não seria possível perceber que elas são as mesmas.]

Não seria sequer possível perceber que as coisas mudam. Você estaria dentro do processo como um animal, sem ter este recuo tipicamente humano. Por exemplo, o fato de o homem pensar sobre a morte: muitos anos antes ele já está pensando nela, porque já sabe o que vai acontecer. Isto, sem um recuo em relação ao fluxo temporal, você não consegueria fazer. Viveria dentro do fluxo, mas não o perceberia como tal. Para percebê-lo, é preciso que, de certo modo, você o detenha, coloque-se fora dele hipoteticamente, imaginariamente. Por que é que você consegue fazer isto? É porque tem alguma idéia de que existem verdades independentes de tempo. [Aluno: A própria consciência também é algo assim, não é? Você ter consciência de si mesmo, também acho que vem de outro...] Você não poderia ter consciência de si mesmo no sentido humano, evidentemente, sem isto. Significa que ele percebe que o princípio de identidade é um dos fundamentos do próprio cogito, coisa que Descartes nem de longe percebe.

[Aluno: Mas em outros animais também se diz que eles apreendem o princípio de identidade. Por exemplo, tenho um cachorro que me reconhece toda vez que eu volto para casa. Isso é porque ele sabe que eu sou o mesmo que era quando saí.]

Pois é, mas reconhecer a identidade dos objetos é uma coisa, reconhecer a permanência do princípio é outra completamente diferente. Veja, a apresentação dos fenômenos sob o aspecto “do mesmo” ou “do outro”, para um animal, isso é pura contingência. Se a coisa se apresentou com o mesmo aspecto ou com outro, isto faz parte do processo do mesmo modo. Você perceber que por trás de todo o fluxo temporal existe um negócio chamado identidade, isso é outra coisa completamente diferente.

[Aluno: Mas eu vi que existem algumas pesquisas com animais mais inteligentes, que conseguem perceber conceitos mais abstratos, como os números (não em grandes quantidades, mas até sete, até oito, por aí), que formam...]

Não. Perceber número também faz parte do fluxo, porque o número é o próprio fluxo, a contagem é o próprio fluxo. O que ele não vai conseguir é fazer conta, pois na base do cálculo está um negócio chamado identidade. Toda conta que você faz tem um resultado que se chama “igual”: esta quantidade aqui é a mesma que aquela, embora não pareça. Isto é impossível de um animal perceber.

[Aluno: Então o animal pára na contagem, e o ser humano vai além?]

Ele pára na constatação empírica de identidades, sem perceber que existe a própria identidade como um elemento estruturante desse conjunto. Isto significa que conseguimos negar o fluxo temporal, conseguimos saber que ele não é tudo. E como é que sabemos que sempre soubemos disso? Um indício é o seguinte: jamais se encontrará uma civilização, por mais primitiva que seja, por mais bárbara, por mais ignorante que seja, que não tenha um rito qualquer de sepultamento dos mortos. Isto indica claramente a idéia de uma permanência por trás do fluxo.

Provavelmente, a percepção consciente da identidade é a base da própria existência humana. Já explicamos sobre aquelas culturas de tipo cosmológico como fenômenos que emergiam da busca de permanência por trás do fluxo. O que nos faz, por exemplo, observar um ciclo lunar inteiro? Não é a idéia de percebermos por trás do fluxo uma repetição e de podermos usá-lo conscientemente? Note que o homem não faz isso como os animais. O animal, quando tem um comportamento cíclico, ele simplesmente está dentro do ciclo, acompanha o ciclo da natureza fielmente... Ele pode acompanhá-lo ou não. O homem é o contrário, em vez de acompanhá-lo, pretende vencê-lo, criando situações estáveis no meio de um clima instável, por exemplo. Na medida em que procura colocar sobre o meio natural uma ordem abstrata que não está na própria natureza – embora possa ter sido inspirada até nela mesma –, ele está se colocando fora e acima desse ciclo, e isto tudo já pressupõe o conceito de identidade, de Eternidade, de permanência, etc."

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Nós nos transformamos naquilo que praticamos com freqüência. A perfeição, portanto, não é um ato isolado, é um hábito. (Aristóteles)


Na medida em que você se desliga do espírito daquela era, está ligado ao espírito de todas as eras. Isto quer dizer que, de fato, na constituição do próprio indivíduo, já está dada toda a dialética entre o mundo do sensível ou da temporalidade e o mundo da eternidade. (Olavo de Carvalho)


Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo. (Hermann Hesse)


Quanto menos um sujeito entende a religião, mais se prontifica a modificá-la, isto é, a reduzi-la às dimensões da sua própria falta de consciência. Uma concepção evolutiva da religião mostra apenas incapacidade de conceber alguma coisa acima da esfera temporal. O "senso da eternidade" é apenas o primeiro grau da consciência religiosa. (Olavo de Carvalho)


Quando os homens já não acreditam em Deus, não é que não acreditem em mais nada: acreditam em tudo. (G. K. Chesterton)


Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada. (Edmund Burke)


Experiência não é o que acontece com o homem; é o que o homem faz com o que lhe acontece. (Aldous Huxley)


Pode-se enganar todo mundo durante algum tempo, e certas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo o mundo todo o tempo. (Abraham Lincoln)


Faça aparecer o que sem você não seria talvez jamais visto. (Robert Bresson)


Educação é o que resta depois de ter esquecido tudo que se aprendeu na escola. (Albert Einstein)


Todos estamos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando as estrelas. (Oscar Wilde)


Qualquer pessoa que não seja inteiramente imbecil ou imbecilizada pelo jogo literário de entes de razão sabe que existe, no mundo inteiro, uma guerra revolucionária com o objetivo de massificar o homem e de apagar nas almas os últimos lampejos das saudades de Deus. Os marxistas desempenham papel de desta­que, e os judeus marxistas ou filocomunistas trazem para esta causa todo o furor que lhes vem da antiga grandeza. (Gustavo Corção)