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Vox populi, vox Dei?


Como diz o ditado, “A voz do povo é a voz de Deus”, certo? Pois nada mais errado. Aliás, essa deve ser uma das mais mal citadas frases de toda a história, uma vez que o autor queria expressar o contrário do sentido que hoje lhe é atribuído. Até onde se tem conhecimento, o primeiro a empregá-la foi o teólogo britânico Alcuíno (735-804), em uma carta na qual dava conselhos a Carlos Magno: "Não devem ser ouvidos os que costumam dizer que a voz do povo é a voz de Deus, pois a impetuosidade do vulgo está sempre próxima da insânia". Alcuíno não exagerou, muito antes pelo contrário, tanto que se ouve que cada um tem a sua verdade e deve ser respeitado por isso, tudo pelo povo e para o povo (ainda que esse desconheça em que barca o estão colocando). Crê-se que todos e, por conseqüência, nenhum dos caminhos levam a Deus, vide a busca por arremedos espirituais e pseudofilosóficos, Paulos Coelhos, ou a própria mensagem do Evangelho, transmitida de forma distorcida pelos cristãos (ver excelente ensaio sobre o assunto, intitulado A mente de Cristo, de autoria da amiga Norma Braga). Para a sociedade moderna, a única voz que não leva a Deus é a Dele mesmo.

Jesus foi muito indagado pelos discípulos. Uma das questões, qual o caminho a tomar para a plena realização espiritual e a eternização da alma, recebeu Dele a seguinte resposta: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim”. (Jo 14.6) O Mestre não disse que havia atalhos, tampouco deixou exceções. O que importa é que se opte pelo caminho certo: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jo 8.32)

Em que ponto quero chegar, você deve estar se perguntando. Explico: recebi a visita de um mestre-de-obras, em virtude da reforma do banheiro de casa. Um trabalhador honesto, um "cidadão de bem", segundo o politicamente correto way of speaking, cujo defeito, até então, era ser torcedor do Internacional: ao comentar a rodada do final de semana e o tal pênalti não marcado em favor do seu clube no empate com o Corinthians, motivo de debates entre nossos para lá de ocupados senadores, que, em vez de preocuparem-se com o novo recorde nacional - a superação da Itália, em se tratando de produção de pizzas -, discutem futebol. Tudo errado, mas tudo bem. Afinal, o que esperar de uma nação cuja necessidade de Verdade foi totalmente substituída por um mero “sentir”? Acontece que ele acredita que seu clube foi prejudicado, “roubado”, por causa do momento político do país, de maracutaia generalizada seguida de impunidade. E sabe qual foi seu resmungo perante os desmandos tropicais? “Se fosse com Fidel, isso tudo não estaria acontecendo”. Claro. É por essas e outras que, caso a voz do povo fosse a voz de Deus, Ele seria comunista.

Agora, vem a pergunta: o que leva alguém honesto, sem terceiras intenções (eleitoreiras ou de autopromoção), a ter como modelo de virtude um ditador sanguinário, um tumor maligno que precisa ser extirpado? A resposta é por demais óbvia: décadas de lavagem cerebral, de manipulação dos fatos e do vocabulário, corrupção dos valores. Cada vez que uma Marxilena Piuí, com sua contumaz sutileza à la trem descarrilado, barulhenta e perigosa, afirma que Lula a emociona sempre que abre a boca, ou quando um Chico Buarque avaliza el paredón, pronto, lá se foram várias consciências. Não que o mestre-de-obras seja um uspiano ou fã do maior poeta vivo (sic), mas são esses os formadores de opinião, ditadores dos parâmetros das discussões, o que pode ou não ser dito e pensado.

O Brasil é o exemplo mais bem acabado de livre mercado, em se tratando da compra e venda de consciências: praticamente todas têm seu preço ou possuem essência deformada, apenas à espera da dose de veneno necessária para danificá-las para todo o sempre.

Deixo a seguir alguns trechos de ensaio de Voegelin traçando o histórico de toda essa distorção, que atinge o mundo todo e, especificamente, chega a níveis pandêmicos em terras que, ainda que abençoadas por Deus, teimam em renegá-Lo, para propósitos de dominação de alguns.

BASES MORAIS NECESSÁRIAS À COMUNICAÇÃO NUMA DEMOCRACIA*
(Eric Voegelin)

A substância da ordem desceu, na escala ontológica, a partir de Deus, resvalando hierarquia abaixo pela razão, a inteligência pragmática, a utilidade, as forças de produção e determinantes raciais, até chegar aos impulsos biológicos.

A era da razão recebeu seu nome, não porque fosse particularmente razoável, mas porque os pensadores do século 18 acreditavam ter encontrado na Razão, com R maiúsculo, o sucedâneo da ordem divina.

A moralidade é inseparável da racionalidade. A conexão será esclarecida pela definição de consciência dada por Etienne Gilson: a consciência é o ato de julgamento pelo qual aprovamos ou reprovamos nossas ações à luz de princípios morais racionais. Para agir racionalmente, o homem tem que saber quem ele é, em que espécie de mundo ele vive, e qual é sua posição na ordem do ser. Um homem confuso quanto à essência de sua existência é um homem incapaz de ação racional; e se ele é incapaz de ação racional, é também incapaz de ação moral.

Se a “opinião” é caracterizada pelas concepções de natureza humana e de ordem social que surgiram no decurso da redução ontológica, o conhecimento da essência da existência fica seriamente perturbado. E se perturbações desse tipo determinam o clima de opinião – como de fato o fazem, em nossa sociedade “pluralista” – as opiniões comunicadas se tornam irracionais, enquanto os atos de comunicação se tornam moralmente deficientes na proporção de sua irracionalidade. A comunicação, mesmo que seja substantiva em intenção, será, não formativa, mas deformativa da personalidade, se a concepção de ordem que ela comunica muda um nível da descensão ontológica.

A ordem da alma depende do amor Dei; ela será perturbada quando o amor sui, o amor próprio, prevalecer sobre o amor a Deus. Já os movimentos de que falei (Reforma Protestante, Revolução Francesa e Comunismo) são um fenômeno de importância histórica mundial, no sentido de que eles constituem a revolta da sociedade ocidental contra Deus. Esta revolta expressou-se em três grandes atos simbólicos: (1) na remoção do Papado, enquanto representação da ordem divina, da cena pública do mundo ocidental; (2) no regicídio; e (3) no deicídio. O afastamento do papado de seu lugar na ordem pública do mundo ocidental é o resultado simbólico da primeira onda de movimentos. Em 1648, o papado desapareceu da cena diplomática da ordem européia. O anti-papismo, que se tornou patente nesta época, teve conseqüências significativas sobre a área das comunicações, na medida em que Milton desejava reservar liberdade de imprensa para a opinião protestante na Inglaterra, enquanto Locke explicitamente excluía os católicos de qualquer tolerância no reino inglês. As restrições políticas aos católicos continuaram até o século 19, na Inglaterra.

Se, por um lado, a remoção do papado da ordem pública do Ocidente mal foi reconhecida como o primeiro dos grandes atos de revolta, por outro, é bem compreendida a ligação que existiu entre o regicídio e o deicídio como atos simbólicos de revolta contra Deus. A execução de Carlos I não foi uma manifestação violenta de republicanismo contra um tirano, mas um ataque contra o “reino divino”, contra o rei enquanto representante da ordem transcendental na comunidade, e sua substituição como fonte de autoridade pela comunidade dos santos no sentido puritano. A decapitação do rei foi, então, seguida pela decapitação de Deus, no culto da Revolução Francesa, na declaração da morte de Deus na Fenomenologia de Hegel, na substituição de Deus pelo super-homem levada a termo por Marx e Nietzsche.

Se a linguagem empregada na comunicação é irracional, a moralidade da própria comunicação fica prejudicada na proporção direta de sua irracionalidade.

*VOEGELIN, Eric. Necessary moral bases for communication in a democracy. In: Problems of communication in a pluralistic society. (Papers delivered at a conference on Communication, the fourth in a series of Anniversary Celebrations, March 20, 21, 22 and 23, 1956). Milwaukee (Wis.): The Marquette University Press, 1956. pp. 53-68.

noite_interminavel
Nós nos transformamos naquilo que praticamos com freqüência. A perfeição, portanto, não é um ato isolado, é um hábito. (Aristóteles)


Na medida em que você se desliga do espírito daquela era, está ligado ao espírito de todas as eras. Isto quer dizer que, de fato, na constituição do próprio indivíduo, já está dada toda a dialética entre o mundo do sensível ou da temporalidade e o mundo da eternidade. (Olavo de Carvalho)


Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo. (Hermann Hesse)


Quanto menos um sujeito entende a religião, mais se prontifica a modificá-la, isto é, a reduzi-la às dimensões da sua própria falta de consciência. Uma concepção evolutiva da religião mostra apenas incapacidade de conceber alguma coisa acima da esfera temporal. O "senso da eternidade" é apenas o primeiro grau da consciência religiosa. (Olavo de Carvalho)


Quando os homens já não acreditam em Deus, não é que não acreditem em mais nada: acreditam em tudo. (G. K. Chesterton)


Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada. (Edmund Burke)


Experiência não é o que acontece com o homem; é o que o homem faz com o que lhe acontece. (Aldous Huxley)


Pode-se enganar todo mundo durante algum tempo, e certas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo o mundo todo o tempo. (Abraham Lincoln)


Faça aparecer o que sem você não seria talvez jamais visto. (Robert Bresson)


Educação é o que resta depois de ter esquecido tudo que se aprendeu na escola. (Albert Einstein)


Todos estamos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando as estrelas. (Oscar Wilde)


Qualquer pessoa que não seja inteiramente imbecil ou imbecilizada pelo jogo literário de entes de razão sabe que existe, no mundo inteiro, uma guerra revolucionária com o objetivo de massificar o homem e de apagar nas almas os últimos lampejos das saudades de Deus. Os marxistas desempenham papel de desta­que, e os judeus marxistas ou filocomunistas trazem para esta causa todo o furor que lhes vem da antiga grandeza. (Gustavo Corção)