sexta-feira, setembro 23, 2005

A elite, o povo e os inocentes criminosos

Acusaram e, automaticamente, julgaram entre si, sem a menor possibilidade de defesa. O veredicto: condenação perpétua de uma criminosa onipresente, mas que ninguém é capaz de provar sua existência. O nome da ré: elite. A impressão é de que se trata de uma espécie de maçonaria, uma sociedade secreta de poderosas mentes maquiavélicas responsáveis, sob nossas vistas, por todos os históricos problemas da nação. Recentemente, ela, ao mesmo tempo, foi a culpada pelo lamaçal do Partido dos Trambiqueiros e pela queda de Severino Cavalcanti (ou Cheque-Cheque, como cantaria Genival Lacerda).

Essas imaculadas vítimas da elite sofreram esses dissabores por serem antagonistas a ela e estarem a favor de outra denominação sem definição, tampouco rosto, o povo. Testemunhamos, então, no centro do picadeiro da vida pública nacional, a um embate entre forças opostas e desiguais, entre um heróico e frágil Davi e um Golias elitista, ambos invisíveis. Tudo é feito em nome do povo, cuja satisfação é desenvolvida à medida que o partido estende seus tentáculos mais e mais ao roubar dinheiro de todos na maior ação entre amigos já praticada - salvo em nações que experimentaram, com maior riqueza de detalhes, outros regimes esquerdistas - e ao praticar crimes ainda piores, como associação com o narcotráfico e com ditadores sanguinários, assassinatos, tentativas de mordaça da imprensa... Quando pego com a boca na botija, ou melhor, com os dólares na cueca, credita-se a culpa à elite. Lamentável.

Enquanto isso, são exibidas propagandas do PC do B defendendo a continuidade do governo petista e depositando confiança na figura mais ética de que já se teve notícia, o presidente Molusco. A deputada Jussara Cony e os vereadores Raul Carrion e Manuela aparecem acusando a tal da elite de querer aplicar um golpe na democracia (sic) brasileira para sufocar as reivindicações e necessidades... do povo! Criminosamente coniventes com a corrupção, saem-se, entretanto, como os novos pilares da moralidade nacional.

Haja medicação para tamanha dose de esquizofrenia.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Notas

DE CHORAR: Acabo de receber uma mensagem de um "amigo" divulgando o lançamento do cd de sua banda. No e-mail, ele começava a defesa de seu projeto cultural – não há um pingo de ironia minha nessa definição, pois tudo o que é produzido pelo homem (lamento, politicamente corretos, pela proposital omissão do gênero feminino) é cultura, inclusive... bom, sem maiores detalhes - com um pouco de seu pensamento: “só haverá igualdade social no dia em que todos tiverem o mesmo nível de conhecimento. O mundo só será melhor através da verdadeira educação.” O que o avanço nas idéias não fazem pela humanidade... Até relacionar verdadeira educação (como seria a falsa?) com todos terem o mesmo conhecimento, o tempo conseguiu. Como me disse há pouco meu amigo sem aspas Eduardo Levy, para todos termos o mesmo nível, é bem simples: basta exterminar as poucas inteligências existentes.

Foram usadas, ainda, as singelas palavras igualdade e social, que, unidas, adquirem um poder transcendental. Igualdade social: todos a querem, poucos a têm, não? Só que igualdade em quê? Na fila do açougue, na parada de ônibus, na entrevista de emprego, no vestibular, nos relacionamentos pessoais? Chega, são especulações demais para a minha notória falta de criatividade.

A MENTIRA REPETIDA MIL E UMA VEZES: Manhattan Connection de ontem. Lucas Mendes pergunta a Diogo Mainardi se ele concorda sobre a falência das ideologias de esquerda e o aparente fortalecimento das de direita, tendo como modelo os EUA, devido às respostas do juiz John Roberts Jr, recém nomeado por Bush para ocupar a presidência da Suprema Corte, durante a sabatina realizada pelo Senado. Segundo Lucas, as respostas de Roberts demonstram plenamente sua sólida ideologia, a de direita. Caio Blinder, após a resposta de Mainardi, que considera a maneira de pensar do juiz simplesmente condizente com a de um jurista de verdade, diferente da de um Nelson Jobim politiqueiro, complementa que nem todas as ideologias de esquerda foram condenáveis e nem todas as de direita, benéficas, exemplificando com o “bigode da Alemanha”, cá para nós, o exemplo bem acabado de direitista: estatizante na economia e na educação, paternalista, centralizador e propagador do interesse comum em detrimento do individual. Ora, que direitista mais esquerdista é esse? Então, Lucas Mendes lembra a Caio sobre um outro bigodudo, sendo rapidamente retrucado por este, sob os dizeres que “o primeiro (citado) foi pior”.

Desliguei a tv e fui comer pizza.

TEMPOS (CADA VEZ MAIS) MODERNOS: No fim dos anos 80, Martin Scorsese fez Jesus Cristo abrir mão de sua Divindade para casar e ter filhos em A última tentação de Cristo. Em 2005, um filme propõe-se a retratar Jesus e seus discípulos como homossexuais, um tal de Corpus Christi, adaptação de uma peça teatral de 1999. Sinal dos tempos.

sábado, setembro 10, 2005

Em revista

Estava eu à espera do início de uma entrevista de estágio. Tranqüila, pego uma das revistas empilhadas à minha frente. O nome era Versatille, publicação com matérias sobre moda, decoração, entrevistas com celebridades, coluna social recheada com muitas fotos... Enfim, quase uma Caras local. Começo a folheá-la para passar o tempo. Logo, deparo-me com um texto, cuja autoria é de Tatata Pimentel, famoso comunicador gaúcho e professor de Letras da PUC-RS. O sugestivo título era "Woodstock no Vaticano". Despertada a curiosidade, começo a ler e deparo-me com um festival de besteiras, com, literalmente, alguém rasteiro golpeando baixo, obviamente fazendo jus às idéias nada originais que integram a mentalidade dos auto-intitulados cidadãos críticos, principalmente quando se trata de torpedear essa malévola instituição responsável por boa parcela de atrasos sociais, descontado o fato de ser propagadora da ignorância, a Igreja.

O tema abordado era o funeral do papa João Paulo II e a escolha de seu sucessor, que, para o colunista, tornou-se, devido à intensa cobertura da mídia e à vigília e expectativa de fiéis do planeta inteiro, surpreendendo e escandalizando-o por causa da enorme quantidade de jovens, uma espécie de evento pop, equivalente a um Woodstock, desguardadas as devidas proporções.

Como se não bastasse analisar um acontecimento de suma importância desprezando a religião e, por conseqüência, toda a herança cultural ocidental, na qual ele está inserido, por mais que renegue essa tradição, e, ironia das ironias, até se beneficia (não esqueçamos que ele tira boa parte de seu sustento graças a essa instituição retrógrada, dando aulas na Pontifícia Universidade Católica), ao comparar o episódio àquele festival de rock onde drogas rolavam, três mortes aconteceram e hippies e intelectualóides reivindicavam "um mundo mais justo", cheio de peace and love somente mediante a aplicação de ideologias criminosas, forjando a mentalidade de gerações às custas de vidas alheias. Plenamente justificável, claro, tudo por um mundo melhor.

Das mais destacáveis pérolas no artigo, temos "a Igreja odeia o corpo, os desejos, a sexualidade, a inteligência e todos os livros, menos um" e "as mulheres são, para a Igreja, seres imperfeitos". Hum, ela realmente odeia o corpo ou, ao contrário, sacraliza-o? Ela abomina a sexualidade ou a defende de aberrações e quer que seja exercida de modo responsável, com cumplicidade e respeito? Ih, odeia a inteligência? Como, se é isso o que nos define como indivíduos únicos, que nos distingüe de meros animais suscetíveis apenas aos mandos e desmandos dos instintos, se é essa a mensagem da Igreja referente à salvação pessoal e à compreensão da unidade corpo-alma-espírito?

Todos os livros, menos um... Outro tiro no escuro, ou melhor, na escuridão da ignorância ou desfaçatez: quer dizer que a Igreja, durante a Idade Média, não foi a responsável pela conservação de escritos da Antigüidade, do período Antes de Cristo? A propósito, alguém sabe de algum pronunciamento dela condenando algum livro de um Platão, Aristóteles ou Dostoievski? Ela condena, isso sim, O código Da Vinci, uma ficção, criação livre voltada ao enriquecimento financeiro de seus envolvidos, obra que mistura pessoas reais, descobertas gnósticas para lá de duvidosas, para não dizer totalmente inverídicas (ver Quebrando o código Da Vinci, Darrell L. Bock), e alguns fatos históricos, diretamente voltada à depreciação da religião ao questionar seus preceitos, quando há provas e mais provas de tratar-se de puro cinismo ainda citá-los como fatos passíveis de discussão, ainda que se defina como diversão descompromissada (quando se vê avaliada e devidamente condenada, é claro).

Para finalizar, temos o desprezo católico às mulheres, esses seres imperfeitos. É, deve ser por isso que Maria, "apenas" a mãe de Jesus, nosso Salvador, foi pouco importante na vida do Filho e, no decorrer dos tempos, figura nada louvada, quanto mais santificada, não é mesmo? Também, Maria Magdalena (mais uma vez, não perca Quebrando o código Da Vinci, no qual o autor dissipa qualquer dúvida a respeito do relacionamento entre Jesus e ela) não deve ter tido importância nenhuma na trajetória do Messias, salvo ter circulado entre seus seguidores mais próximos e ter sido uma das figuras escolhidas por ele para ser uma das primeiras e principais testemunhas da Ressureição. Ao que me consta, quem nutre um certo desprezo - ainda que enrustido - ao feminino é o sr. Tatata, que, figurinha carimbada em boates, já foi visto bradando em pistas de dança sua incompreensão da “opção” de homens em relacionar-se com... mulheres! Segundo ele, é tudo a mesmíssima coisa. Bom, não preciso comentar do assumido homossexualismo da figura.

Tatata finaliza dizendo que, após toda aquela overdose de sentimentalismo vindo dos jovens - apontados por ele como iludidos, inocentes úteis temporariamente desmemoriados dos disparates e do conservadorismo barato e demodé católicos - e de espetáculo gratuito, ele voltará às leituras de seus antídotos de sabedoria contra tamanha demonstração de irracionalidade e manipulação coletiva: "Marx, Freud e Lutero". É, diga-me o que lês que eu te direi quem és. Esclarecimentos adicionais são plenamente dispensáveis.

Minha vez de finalizar: para Northrop Frye, toda a grande obra literária possui algum elemento já abordado na Bíblia. Eu devo concordar com o professor de literatura de Cambridge ou seu nada equivalente exemplar tupiniquim? Dúvidas, dúvidas...

domingo, setembro 04, 2005

Indispensável

Inversamente proporcional a relação entre a quantidade e a qualidade de minha produção escrita (sic) e de minhas leituras. Nessas andanças, em busca do que não posso oferecer, deparei-me com o novo texto do A Elegância vai ao Cinema sobre o filme Magnólia, uma preciosidade.

Como aperitivo, destaco um trecho do que deve ser lido em totalidade e com atenção: "Porque a razão é na verdade uma exigência feita pelo sujeito mesmo de coerência entre aquilo que ele sabe e aquilo que ele vive. O homem não suporta a incoerência, ele precisa compreender, ele exige compreender as coisas que lhe acontecem exatamente porque é racional. Ou seja, a razão é ao mesmo tempo um dom de inteligir e compreender o mundo ao mesmo tempo que é uma necessidade de coerir nele mesmo aquilo que ele sabe com aquilo que ele vive. Ou seja, não basta só saber, é preciso que esse saber tenha um porquê, uma finalidade, uma coerência com a vida do indivíduo, que é por sua vez o princípio ordenador e estruturador da razão mesma."

Imperdível. Créditos a Francisco Escorsim, de uma elegância impar.

noite_interminavel
Nós nos transformamos naquilo que praticamos com freqüência. A perfeição, portanto, não é um ato isolado, é um hábito. (Aristóteles)


Na medida em que você se desliga do espírito daquela era, está ligado ao espírito de todas as eras. Isto quer dizer que, de fato, na constituição do próprio indivíduo, já está dada toda a dialética entre o mundo do sensível ou da temporalidade e o mundo da eternidade. (Olavo de Carvalho)


Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo. (Hermann Hesse)


Quanto menos um sujeito entende a religião, mais se prontifica a modificá-la, isto é, a reduzi-la às dimensões da sua própria falta de consciência. Uma concepção evolutiva da religião mostra apenas incapacidade de conceber alguma coisa acima da esfera temporal. O "senso da eternidade" é apenas o primeiro grau da consciência religiosa. (Olavo de Carvalho)


Quando os homens já não acreditam em Deus, não é que não acreditem em mais nada: acreditam em tudo. (G. K. Chesterton)


Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada. (Edmund Burke)


Experiência não é o que acontece com o homem; é o que o homem faz com o que lhe acontece. (Aldous Huxley)


Pode-se enganar todo mundo durante algum tempo, e certas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo o mundo todo o tempo. (Abraham Lincoln)


Faça aparecer o que sem você não seria talvez jamais visto. (Robert Bresson)


Educação é o que resta depois de ter esquecido tudo que se aprendeu na escola. (Albert Einstein)


Todos estamos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando as estrelas. (Oscar Wilde)


Qualquer pessoa que não seja inteiramente imbecil ou imbecilizada pelo jogo literário de entes de razão sabe que existe, no mundo inteiro, uma guerra revolucionária com o objetivo de massificar o homem e de apagar nas almas os últimos lampejos das saudades de Deus. Os marxistas desempenham papel de desta­que, e os judeus marxistas ou filocomunistas trazem para esta causa todo o furor que lhes vem da antiga grandeza. (Gustavo Corção)