segunda-feira, julho 25, 2005

Platão explica

Sabe aquela sensação de sempre ter sabido algo, aquela certeza aparentemente injustificável de conhecer uma idéia mesmo sem um contato prévio, a ponto de defendê-la interiormente, rejeitando oposições a ela? Platão - e não Freud - explica, por meio do mito de Fedro, a origem do homem, o conhecimento das idéias e seu método intelectual.

Nas palavras do filósofo espanhol Julián Marías, "Segundo o famoso mito que Sócrates conta a Fedro, a alma, na sua situação originária, nas margens do Iliso, pode comparar-se a um carro puxado por dois cavalos alados, um dócil e de boa raça, o outro desordeiro (os instintos sensuais e as paixões), dirigidos por um auriga (a razão), que se esforça por conduzir o carro com perfeição. Este carro, num lugar supraceleste, circula pelo mundo das idéias, que a alma contempla assim, embora não sem dificuldade. As dificuldades para guiar os dois cavalos fazem com que a alma caia: os cavalos perdem as asas, e a alma
encarna num corpo. Se a alma vislumbrou, ainda que por pouco tempo, as idéias, esse corpo será humano, e não animal, e conforme as tenha contemplado mais ou menos tempo, as almas dispõem-se numa hierarquia de nove degraus, que vai do filósofo ao tirano. A origem do homem resulta, pois, da queda de uma alma, cuja procedência é divina, alma que já tivesse contemplado as idéias. Mas o homem encarnado não as recorda. Das suas asas não restam senão cotos doloridos, que se excitam quando o homem vê as coisas, porque estas fazem-no recordar as idéias, vislumbradas na existência anterior. Este é o método do conhecimento. O homem parte das coisas, não para quedar-se nelas, para encontrar nelas um ser que não tem, mas para que elas lhe provoquem uma recordação ou reminiscência (anamnesis) das idéias contempladas noutro tempo. Conhecer, portanto, não é ver o que está fora, mas o contrário: recordar o que está dentro de nós. As coisas são apenas um estímulo para que delas nos afastemos e nos elevemos até as idéias".

(História da filosofia, Julian Marías, pág. 66)

sábado, julho 23, 2005

Vítima da elite

"Eu conquistei o direito de andar de cabeça erguida com muito sacrifício. E não vai ser a elite brasileira que vai me fazer baixar a cabeça, não vai ser", afirmou o agora comandante da nação, uma vez que José Dirceu (também conhecido como Daniel, Carlos Henrique, Xexéu, entre outros, depende da época em questão), o ex-presidente, foi rebaixado a reles deputado federal.

Lula me surpreendeu positivamente ao perceber que a elite brasileira quer fazê-lo baixar a cabeça, afinal, em terras nacionais, há alguma outra elite que não sejam os integrantes e os comparsas do PT?

terça-feira, julho 12, 2005

Seria trágico, se não fosse hilário

Centro de Porto Alegre. Pela enésima vez, bandos de agitadores pertencentes a infinitas siglas, as quais não me recordo agora e faço questão disso, gritam palavras de ordem durante sua marcha, sinônimo de complicações no já naturalmente caótico trânsito dessa parte da cidade e, é claro, de besteirol, digno do hospício de idéias a que foi convertida a nação. Os motivos de tanta raiva são originalíssimos: corrupção e desemprego. A solução exigida pelos manifestantes é brilhante: abertura de mais vagas em concursos públicos.

No Brasil, é assim: tem-se um problema notório, no caso a dificuldade financeira da população. Daí, a emenda é sempre pior que o soneto: não percebem que boa parte dos problemas enfrentados origiram-se da estrutura burocrática, da mentalidade paternalista que suga mais de quatro meses dos nossos salários anuais e sufoca a livre iniciativa, impedindo a expansão econômica e a geração de empregos, e querem aumentar o alcance dos tentáculos estatais nas nossas vidas (como se ainda fosse possível). É a união da burrice, de não ver os fatos, com a acomodação. Se bem que seria exigir demais de cidadãos que acompanham pela mídia o roubo, a irresponsabilidade administrativa e a eterna alegação de inocência das figuras públicas, que saem de cabeças erguidas diretamente para outro posto do governo. É, por que não querer lutar pela "inclusão social" na mamata generalizada?

Enquanto isso, nosso prefeito volta de uma viagem engrandecedora: contatou pessoalmente Oscar Niemeyer para pedir que desenvolva homenagens - em forma de bustos ou estátuas, tanto faz - a figuras importantes da história política gaúcha, como Vargas, Brizola e etc. O arquiteto, descrito por Fogaça como um "homem simples, sem pompas", cujas frases de louvor ao socialismo espalhadas pelas paredes da casa emocionaram-no, gostou da idéia, com a condição de prestar sua homenagem a ... Carlos Prestes! E Fogaça parece ter ficado para lá de satisfeito com o quid pro quo.

Já no gabinete do governador, a primeira-dama, há uns dois meses, lançou uma campanha contra a gravidez na adolescência usando como garotos-propaganda os integrantes da banda Comunidade Nin-Jitsu, phds em letras de triplo sentido ou mais explícitas, impossível, queridinhos dos estudantes na época em que eu estava no colégio. Naquela época. Hoje, como devem estar matando cachorro a grito, pois nunca mais foram ouvidas suas instrutivas canções nas rádios, posam de bons moços, de neocons, para garantir um espaçozinho na tv e, se vacilarmos, uma verbinha estatal.

Agora, um lamento pessoal: uma pena a estrela petista ter ido para o espaço antes de lançarem uma campanha contra as drogas estrelada pelo cantor (sic) Marcelo D2.

segunda-feira, julho 11, 2005

Teoria interessantíssima e vivas ao Casseta e Planeta

"Quando uma manada de búfalos é caçada, os mais fracos e lentos, em geral doentes, que estão atrás do rebanho, são mortos primeiro. Essa seleção natural é boa para a manada como um todo, porque aumenta a velocidade média e a saúde de todo o rebanho pela matança regular dos seus membros mais fracos. De forma parecida opera o cérebro humano: beber álcool em excesso, como nós sabemos, mata neurônios, mas, naturalmente, ele ataca os neurônios mais fracos e lentos primeiro. Neste caso, o consumo regular de cerveja, cachaça, whisky, vinho, rum, vodka e afins elimina os neurônios mais lentos, tornando seu cérebro uma máquina mais rápida e eficiente. E mais: 23% dos acidentes de trânsito são provocados pelo consumo de álcool. Isto significa que os outros 77% dos acidentes são causados por quem bebe água, suco ou refrigerante. Colabore! Seja inteligente! Já pro boteco!"

Após a leitura acima, aproveitando-me do fato de nunca ter sido muito chegada em bebidas, só em umas poucas e boas, decidi interromper o consumo, ainda que moderado. Assim, talvez eu consiga virar espectadora do Zorra Total, assistir ao Jornal Nacional e desenvolva estômago para tolerar canhotos de todas as querências. Em resumo, planejo sentir-me uma brasileira plena, já que refletir e remar contra a maré faz mal por aqui.

Trocando de assunto, mas aproveitando as menções à programação da rede que faz você de bobo, enquanto avalio o teor alcoólico do meu sangue e tomo resoluções (com o perdão do trocadilho), nossos valorosos políticos sentem-se ofendidos... pelo Casseta e Planeta da semana passada! É, os parlamentares reclamaram do quadro em que foram chamados de "deputados de programa". Nele, uma prostituta fica indignada quando lhe perguntam se é deputada. O quadro em que são vacinados contra a "febre afurtosa" também provocou constrangimento. Lindo, não? Eles só se constrangem com as críticas, não com o comportamento que os leva a serem criticados.

Entretanto, o melhor do episódio foi a resposta dos humoristas. Mesmo não querendo falar sobre o assunto, alegando "não dar importância à concorrência", emitiram a seguinte nota de esclarecimento: "foi com surpresa que nós, integrantes do Grupo Casseta & Planeta, tomamos conhecimento, através da imprensa, da intenção do presidente da Câmara dos Deputados de nos processar por causa de uma piada veiculada em nosso programa de televisão. Em vista disso, gostaríamos de esclarecer alguns pontos:

1. Em nenhum momento tivemos a intenção de ofender deputados ou prostitutas. O objetivo da piada era somente comparar duas categorias profissionais que aceitam dinheiro para mudar de posição.
2. Não vemos nenhum problema em ceder um espaço para o direito de resposta dos deputados. Pelo contrário, consideramos o quadro muito adequado e condizente com a linha do programa.
3. Caso se decidam pelo direito de resposta, informamos que nossas gravações ocorrem às segundas-feiras, o que obrigará os deputados a interromper seu descanso."

Difícil imaginar melhor resposta.

sábado, julho 09, 2005

Silencio, no hay banda.

Não me pronunciei até agora sobre o escândalo governista e a estrela (de)cadente que o PT transformou-se em tempo recorde por ainda estar remoendo, cá com meus botões, a sucessão de fatos, que não tenho acompanhado muito de perto por opção, somente através de textos via e-mail e blog de amigos, para tentar vislumbrar o futuro panorama político nacional.

Abandonado os pensamentos, quero destacar dois pontos: para quem acompanha com a devida atenção as palavras de Olavo de Carvalho, em nada surpreende o nível de baixeza atingido pelo partido da ética, defensor da moral e dos bons costumes, previsto com anos e mais anos de antecedência pelo grande filósofo. O que realmente choca é a maquiavélica articulação de todo o círculo de horrores revelada pelo tal do Roberto Jefferson, o novo "herói" nacional. E que herói.

Articulação essa que conta com as lágrimas de crocodilo de Madalenas arrependidas, que não param de brotar feito chuchu na cerca: apostaram todas as fichas nos seus ídolos e companheiros de longa data, cobravam publicamente um regime ainda menos light por parte do Molusco desdedado e, agora, bancam os escandalizados com a realidade a qual ajudaram a construir.

Confesso que dava como certa a reeleição do Lula há tempos. Agora, preciso escolher, surgiram dúvidas. Então, das duas, uma: ou seremos brindados com o maior rodízio de pizzas da história, tudo ficará no mesmo lugar e teremos um PT com mais 4 anos para, quem sabe, encastelar-se com o aval "democrático" do voto no poder, a la Chávez, com licença para barbarizar, ou seremos governados por algum social-democrata engomadinho, mas ordinário, dos auto-intitulados antagonistas (antas, não opositores), algum "direitista" como Serra ou Alckmin, que não ousa dizer nada contra a ideologia peStista, salvo choramingar picuinhas financeiras por terem ficado de fora da fe$tança. Ficariam esquentando lugar para Heloísa He-lelé-na, o novo pilar de moralidade e de verdadeira preocupação com o social.

O futuro nacional é
preocupante.

terça-feira, julho 05, 2005

A ditadura escancarada

Reproduzo a seguir minha mensagem, devidamente encaminhada à seção de cartas do jornal O Globo pelo e-mail cartas@oglobo.com.br, referente à demissão de Olavo de Carvalho de seu quadro de articulistas anunciada ontem:

A ditadura está escancarada: o filósofo Olavo de Carvalho foi demitido para "corte de despesas"? Pronto, já não restam mais dúvidas (se é que em algum dia do reinado politicamente correto/estatólatra/petista restou): vivemos em plena ditadura. Não, não estamos sendo enviados aos paredões – por enquanto –, mas somos obrigados a viver nas trevas de uma proposital e descarada rede de desinformação.
Espero ainda poder ver a ditadura e o jornal O Globo, seu mais do que nunca assumido e eficiente colaborador, derrotados.

sexta-feira, julho 01, 2005

Campus do Vale e os arrependimentos de uma vida

Desde março deste ano, a sede do meu estágio saiu de um ponto central da cidade e foi para o famoso campus do Vale da UFRGS, na divisa de Porto Alegre com o município de Viamão. Eu levo quase uma hora para chegar e quase outra hora para sair de lá. No caminho de ida, vejo ovelhas, galinhas, bodes, porcos... Cenário ideal para algum George Orwell tupiniquim decidir plagiar o mestre, não é mesmo? Ah, se quase todos não fossem vítimas da síndrome de cogumelos... É como se eu estivesse desprendendo-me da vida urbana, da selva de pedra, para chegar até um outro mundo. É por essas e outras que afirmam que eu não trabalho, e sim me escondo.

Ao chegar ao campus, há uma placa que sempre capta minha atenção: "Dirija com atenção. Cuidado com a fauna". Será que trabalho em meio a cobras e lagartos? É provável, mas jamais será devidamente comprovado por mim, uma vez que me embrenhar por aqueles matagais não faz parte de meus planos, e não sou paga para isso.

Só que toda essa dificuldade de logística tem um lado positivo: faço desses longos deslocamentos a oportunidade ideal do meu dia para pensar sobre a vida, sobre novos posts para cá e sobre o nada, é claro. E sabe por quê? Porque é tão afastado de todos e de tudo, que, para alguém como eu, que viveu - até agora - toda a existência na mesma cidade, afastar-me de tudo afasta-me, simultaneamente, de lembranças.

Cheguei ao ponto dessa cidade estar pequena demais para mim, de cada esquina, cada cruzamento, cada ponto principal percorrido pela minha rotina recordar-me de algo. E essas recordações, por conseqüência, trazem consigo alguns poucos, mas duros arrependimentos. Estes, são agrupados em duas categorias: os das coisas que fiz e os das que deixei de fazer. Os mais angustiantes são, sem sombra de dúvida, os pertencentes ao segundo grupo. Afinal, como sou uma pessoa de perfil analítico, cauteloso, segundo alguns, arrependimentos sobre coisas feitas são raros e, quando existem, geralmente são benéficos, pois possibilitam tirar lições e não repetir o erro. Assim, fortalecem-me. Já os arrependimentos sobre as coisas não feitas... Estes afligem, pois estão em aberto, mesmo que, em sua maioria, insolúveis, não possibilitam aprendizado e deixam aquele espaço para a dúvida "e se?".

Até que o campus do Vale não é de todo um mau lugar.

noite_interminavel
Nós nos transformamos naquilo que praticamos com freqüência. A perfeição, portanto, não é um ato isolado, é um hábito. (Aristóteles)


Na medida em que você se desliga do espírito daquela era, está ligado ao espírito de todas as eras. Isto quer dizer que, de fato, na constituição do próprio indivíduo, já está dada toda a dialética entre o mundo do sensível ou da temporalidade e o mundo da eternidade. (Olavo de Carvalho)


Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo. (Hermann Hesse)


Quanto menos um sujeito entende a religião, mais se prontifica a modificá-la, isto é, a reduzi-la às dimensões da sua própria falta de consciência. Uma concepção evolutiva da religião mostra apenas incapacidade de conceber alguma coisa acima da esfera temporal. O "senso da eternidade" é apenas o primeiro grau da consciência religiosa. (Olavo de Carvalho)


Quando os homens já não acreditam em Deus, não é que não acreditem em mais nada: acreditam em tudo. (G. K. Chesterton)


Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada. (Edmund Burke)


Experiência não é o que acontece com o homem; é o que o homem faz com o que lhe acontece. (Aldous Huxley)


Pode-se enganar todo mundo durante algum tempo, e certas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo o mundo todo o tempo. (Abraham Lincoln)


Faça aparecer o que sem você não seria talvez jamais visto. (Robert Bresson)


Educação é o que resta depois de ter esquecido tudo que se aprendeu na escola. (Albert Einstein)


Todos estamos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando as estrelas. (Oscar Wilde)


Qualquer pessoa que não seja inteiramente imbecil ou imbecilizada pelo jogo literário de entes de razão sabe que existe, no mundo inteiro, uma guerra revolucionária com o objetivo de massificar o homem e de apagar nas almas os últimos lampejos das saudades de Deus. Os marxistas desempenham papel de desta­que, e os judeus marxistas ou filocomunistas trazem para esta causa todo o furor que lhes vem da antiga grandeza. (Gustavo Corção)