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O retorno em grande estilo a Gotham City

Afirmo categoricamente: esqueça os sabres de luz e o surgimento de Darth Vader, pois a melhor superprodução do ano é Batman Begins, e dificilmente perderá esse posto. Os motivos que me levam a dizer isso são variados e, em conjunto, explicativos.

Fui ao cinema sabendo pouco sobre o que veria, apenas que o filme trazia um elenco reunindo vários nomes destacáveis, como Morgan Freeman, Michael Caine e Gary Oldman, fato incomum em produções do gênero, e que a direção era a cargo de Christopher Nolan, cuja filmografia é formada por Amnésia, obra no mínimo curiosa, para não dizer brilhante, narrada de trás para a frente, com o protagonista sofrendo do problema-título e sendo obrigado a tatuar-se a cada descoberta relevante em sua tragetória. Isso sem contar Insônia, um bom policial que nos trouxe Al Pacino, em plena forma, investigando um crime corriqueiro para alguém com o seu nome dentro da lei. O grande achado da história é a ação passar-se em pleno verão do Alasca, época em que não escurece nunca, situação mais do que propícia para revelar fantasmas interiores ("No Alasca, só vivem dois tipos de pessoas: as que nasceram aqui ou as que estão fugindo de alguma coisa", afirma uma personagem).

Com um diretor talentoso e um bom elenco de coadjuvantes, o que ainda faltaria? Claro, o ator para interpretar o clássico personagem-título. E foram bem sucedidos ao escolher Christian Bale como o Bruce Wayne/homem morcego da vez: ele incorpora o papel! Sob a máscara, é possível perceber toda a fúria, a coragem, o esforço, a responsabilidade e a necessária virilidade (no novo Batman, não há espaço para constrangedores mamilos no uniforme, por exemplo, como em Batman & Robin) para ser a esperança e também a solução para uma sociedade destruída, comandada pela bandidagem e corrupção generalizada (precisamos de um Batman em terras abaixo da linha do Equador...). Já enquanto é apenas o playboy milionário, demonstra todas as fraquezas, angústias e questionamentos de ser cheio de traumas e dividido entre vidas totalmente antagônicas. É um trabalho no qual o olhar e a entonação da voz caracterizam os dilemas.

Vamos à narrativa então: a origem de tudo relacionado ao herói é explicada naturalmente, sem ser de forma monótona ou didática, desde sua infância problemática, seu árduo treinamento, suas motivações e graduais transformações interiores, até as engenhocas usadas no combate ao crime. Presenciamos, ainda, um dos raros casos em que as frases de efeito, que pululam nas superproduções, caem como luvas em momentos precisos, pronunciadas com a devida convicção e sinceridade, surtindo efeito positivo.

Cabe destacar que os vilões são comedidos, não gargalham histericamente a cada vez que irão abandonar a tela, fato que, curiosamente, virou febre e passou a ser usado como "recurso dramático" desde o primeiro filme do herói, lançado em 1989, em que Jack Nicholson, como um Coringa extremamente caricato, mas saboroso de ver, conseguia soar original em seu exagero. O problema foi quando todos os vilões seguintes, sem exceção, viraram carnavalescos... Surge, assim, uma ironia do destino: coube a Batman Begins trazer dignidade novamente aos vilões das produções de aventura, principalmente as inspiradas em quadrinhos.

É interessante notar que os - poucos - personagens íntegros da história agem por senso de dever moral ou motivados por traumas. Por simplesmente acreditarem, sentirem-se responsáveis e tirarem daí sua integridade, ou por terem tido a vida invadida e marcada por algo brutal, como o menino Bruce, desencadeando uma reação incontornável, ainda que possa ser sufocada por algum tempo.

Até a mocinha, a momentaneamente senhora Tom Cruise, Katie Holmes, não está em cena apenas para enfeite, para ser salva e suspirar pelo herói, mas o ajuda, possui atitude e colabora decisivamente com despertares fundamentais do cavalheiro das trevas.

Enfim fomos brindados com um filme que faz jus plenamente a Batman, o melhor herói dos quadrinhos, por ter todas as suas atitudes guiadas não pela necessidade de aplicar superpoderes adquiridos, já que ele é de carne e osso, como chega a dizer no filme, e sim por não aceitar as coisas como elas são/estão, decidindo investir seu tempo, inteligência e força de vontade na criação de um mito, um verdadeiro exército de um homem só que servirá de exemplo, além, é claro, de aplacar seus problemas pessoais.

É uma produção sob medida para agradar - e muito – os fãs e o público à procura de uma diversão que não faça abrir mão da inteligência na entrada da sala de exibição.

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Nós nos transformamos naquilo que praticamos com freqüência. A perfeição, portanto, não é um ato isolado, é um hábito. (Aristóteles)


Na medida em que você se desliga do espírito daquela era, está ligado ao espírito de todas as eras. Isto quer dizer que, de fato, na constituição do próprio indivíduo, já está dada toda a dialética entre o mundo do sensível ou da temporalidade e o mundo da eternidade. (Olavo de Carvalho)


Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo. (Hermann Hesse)


Quanto menos um sujeito entende a religião, mais se prontifica a modificá-la, isto é, a reduzi-la às dimensões da sua própria falta de consciência. Uma concepção evolutiva da religião mostra apenas incapacidade de conceber alguma coisa acima da esfera temporal. O "senso da eternidade" é apenas o primeiro grau da consciência religiosa. (Olavo de Carvalho)


Quando os homens já não acreditam em Deus, não é que não acreditem em mais nada: acreditam em tudo. (G. K. Chesterton)


Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada. (Edmund Burke)


Experiência não é o que acontece com o homem; é o que o homem faz com o que lhe acontece. (Aldous Huxley)


Pode-se enganar todo mundo durante algum tempo, e certas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo o mundo todo o tempo. (Abraham Lincoln)


Faça aparecer o que sem você não seria talvez jamais visto. (Robert Bresson)


Educação é o que resta depois de ter esquecido tudo que se aprendeu na escola. (Albert Einstein)


Todos estamos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando as estrelas. (Oscar Wilde)


Qualquer pessoa que não seja inteiramente imbecil ou imbecilizada pelo jogo literário de entes de razão sabe que existe, no mundo inteiro, uma guerra revolucionária com o objetivo de massificar o homem e de apagar nas almas os últimos lampejos das saudades de Deus. Os marxistas desempenham papel de desta­que, e os judeus marxistas ou filocomunistas trazem para esta causa todo o furor que lhes vem da antiga grandeza. (Gustavo Corção)