segunda-feira, junho 27, 2005

Tratados como cogumelos

Durante a leitura de Quebrando o Código Da Vinci, de Darrell L. Bock, que, admito, não estava prevista para agora, mas, como o livro chegou até mim de forma curiosa, senti-me no dever de posicioná-lo como prioridade, deparei-me com a seguinte frase, ainda no prefácio: "se você quer criar cogumelos, deve deixá-los no escuro e alimentá-los com lixo". Francis J. Moloney, o autor dela, é padre, reitor da escola de Teologia e Estudos Religiosos da Universidade Católica dos EUA e sabe o que diz. As perguntas que ficam no ar são: será que ele já fez alguma visita ao Brasil? Ou sequer concebe a existência de uma população inteira feita de cogumelos?

Obs: o contexto da frase de Francis é de crítica ao constante revisionismo e às objeções infundadas desferidas contra a fé dos cristãos, vistos pelos pretensos estudiosos como ingênuas vítimas de tratamento idêntico ao destinado a cogumelos, tanto que, antes, ele coloca: "Em outras palavras, por quase 2000 anos, os cristãos estiveram sujeitos ao mesmo tratamento dedicado aos cogumelos" e finaliza dizendo: "Aquilo em que milhões de pessoas acreditam é o resultado de terem sido alimentadas com lixo!" (sob a ótica dos pretensos historiadores, melhor definidos como esculhambadores, em se tratando de religião. Acertam no raciocínio, mas, claramente, erram o alvo).

domingo, junho 26, 2005

O marketing explica

Até Al Ries, famoso estrategista de marketing americano, explica a situação política brasileira. Não apenas a atual, como também a permanentemente equivocada.

Segundo ele, um estudioso e conhecedor profundo do poder das marcas (e, afora no Brasil, qualquer pessoa vista e respeitada como estudiosa realmente investiu seu tempo e sua disposição no assunto em questão, prática pouco usual por aqui), dois partidos políticos sólidos e antagônicos, como vemos nos EUA e no Reino Unido, formam a situação de equilíbrio. Agora, chegaremos ao que nos interessa e nos atinge diretamente: quando se tem apenas um partido articulado, está caracterizada a ditadura. E, ao se ter inúmeros partidos disputando seu lugar ao sol ao mesmo tempo, o resultado é a instabilidade política. Conclusões mais simples e esclarecedoras, impossível.

Por aqui, vivenciamos um mix das duas últimas situações, o que gera o caos em que estamos, que não é de agora, poucos percebem e quase ninguém realmente quer ver. Nosso fracasso é mesmo facilmente explicável.

sexta-feira, junho 24, 2005

O retorno em grande estilo a Gotham City

Afirmo categoricamente: esqueça os sabres de luz e o surgimento de Darth Vader, pois a melhor superprodução do ano é Batman Begins, e dificilmente perderá esse posto. Os motivos que me levam a dizer isso são variados e, em conjunto, explicativos.

Fui ao cinema sabendo pouco sobre o que veria, apenas que o filme trazia um elenco reunindo vários nomes destacáveis, como Morgan Freeman, Michael Caine e Gary Oldman, fato incomum em produções do gênero, e que a direção era a cargo de Christopher Nolan, cuja filmografia é formada por Amnésia, obra no mínimo curiosa, para não dizer brilhante, narrada de trás para a frente, com o protagonista sofrendo do problema-título e sendo obrigado a tatuar-se a cada descoberta relevante em sua tragetória. Isso sem contar Insônia, um bom policial que nos trouxe Al Pacino, em plena forma, investigando um crime corriqueiro para alguém com o seu nome dentro da lei. O grande achado da história é a ação passar-se em pleno verão do Alasca, época em que não escurece nunca, situação mais do que propícia para revelar fantasmas interiores ("No Alasca, só vivem dois tipos de pessoas: as que nasceram aqui ou as que estão fugindo de alguma coisa", afirma uma personagem).

Com um diretor talentoso e um bom elenco de coadjuvantes, o que ainda faltaria? Claro, o ator para interpretar o clássico personagem-título. E foram bem sucedidos ao escolher Christian Bale como o Bruce Wayne/homem morcego da vez: ele incorpora o papel! Sob a máscara, é possível perceber toda a fúria, a coragem, o esforço, a responsabilidade e a necessária virilidade (no novo Batman, não há espaço para constrangedores mamilos no uniforme, por exemplo, como em Batman & Robin) para ser a esperança e também a solução para uma sociedade destruída, comandada pela bandidagem e corrupção generalizada (precisamos de um Batman em terras abaixo da linha do Equador...). Já enquanto é apenas o playboy milionário, demonstra todas as fraquezas, angústias e questionamentos de ser cheio de traumas e dividido entre vidas totalmente antagônicas. É um trabalho no qual o olhar e a entonação da voz caracterizam os dilemas.

Vamos à narrativa então: a origem de tudo relacionado ao herói é explicada naturalmente, sem ser de forma monótona ou didática, desde sua infância problemática, seu árduo treinamento, suas motivações e graduais transformações interiores, até as engenhocas usadas no combate ao crime. Presenciamos, ainda, um dos raros casos em que as frases de efeito, que pululam nas superproduções, caem como luvas em momentos precisos, pronunciadas com a devida convicção e sinceridade, surtindo efeito positivo.

Cabe destacar que os vilões são comedidos, não gargalham histericamente a cada vez que irão abandonar a tela, fato que, curiosamente, virou febre e passou a ser usado como "recurso dramático" desde o primeiro filme do herói, lançado em 1989, em que Jack Nicholson, como um Coringa extremamente caricato, mas saboroso de ver, conseguia soar original em seu exagero. O problema foi quando todos os vilões seguintes, sem exceção, viraram carnavalescos... Surge, assim, uma ironia do destino: coube a Batman Begins trazer dignidade novamente aos vilões das produções de aventura, principalmente as inspiradas em quadrinhos.

É interessante notar que os - poucos - personagens íntegros da história agem por senso de dever moral ou motivados por traumas. Por simplesmente acreditarem, sentirem-se responsáveis e tirarem daí sua integridade, ou por terem tido a vida invadida e marcada por algo brutal, como o menino Bruce, desencadeando uma reação incontornável, ainda que possa ser sufocada por algum tempo.

Até a mocinha, a momentaneamente senhora Tom Cruise, Katie Holmes, não está em cena apenas para enfeite, para ser salva e suspirar pelo herói, mas o ajuda, possui atitude e colabora decisivamente com despertares fundamentais do cavalheiro das trevas.

Enfim fomos brindados com um filme que faz jus plenamente a Batman, o melhor herói dos quadrinhos, por ter todas as suas atitudes guiadas não pela necessidade de aplicar superpoderes adquiridos, já que ele é de carne e osso, como chega a dizer no filme, e sim por não aceitar as coisas como elas são/estão, decidindo investir seu tempo, inteligência e força de vontade na criação de um mito, um verdadeiro exército de um homem só que servirá de exemplo, além, é claro, de aplacar seus problemas pessoais.

É uma produção sob medida para agradar - e muito – os fãs e o público à procura de uma diversão que não faça abrir mão da inteligência na entrada da sala de exibição.

segunda-feira, junho 13, 2005

E Camões revirou-se em seu túmulo mais uma vez...

Sei que não deveria voltar a postar com o que vou escrever em seguida, porque corro o risco de afugentar meu pequeno, porém fiel - até agora - número de leitores, mas é mais forte do que eu.

Estou lendo e relendo as mais de 60 páginas do trabalho final de uma cadeira de administração pública* há cerca de duas horas. Ficou ao meu encargo corrigir e finalizar o dito cujo (que programaço para a madrugada de segunda...), após passar toda a tarde de sábado reunida com o grupo para terminá-lo, o que, obviamente, não conseguimos. Aliás, alguém disse que futuros administradores conseguem organizar-se? Pois não é que acabei de deparar-me com a frase "Os critérios e normas são bastantes padronizados"? Ai, ai, ai!

Retomo a compostura e sigo a leitura.

* Nessa disciplina, "aprendemos" sobre política e sociedade vendo as idéias de Antonio Gramsci. Sobre economia, doses nada homeopáticas de Celso Furtado, e já ouvi do professor que comunistas e socialistas não existem mais ("a direita venceu", nas palavras dele) e que é interessante a criação de um órgão para controlar a Justiça (ele só não falou sobre o órgão a ser criado para controlar o órgão controlador da Justiça...).

quarta-feira, junho 08, 2005

Marketeira de primeira

Abaixo, segue texto de minha autoria publicado no site do centro acadêmico da escola de administração da UFRGS em 17/09/2004.

O Conceito de Marketing

A todo momento, ouve-se falar em marketing, que há muito deixou de ser assunto exclusivo entre administradores, o meio acadêmico e publicações empresariais, passando a integrar conversas informais - “Estou fazendo meu próprio marketing!” -, além de terrenos tão, aparentemente, distantes da vida organizacional, como a política. No entanto, para entendermos e estarmos aptos a analisar seu verdadeiro significado, faz-se necessário, primeiramente, distingui-lo de outras áreas vistas como similares e, até mesmo, idênticas, como a publicidade e a propaganda.

Esclarecendo: etimologicamente, a publicidade tem origem em público, isto é, relacionado, destinado ou pertencente ao povo. Já a propaganda vem de propagar, ou seja, difundir, espalhar. Contudo, apesar das distinções, existem, na prática, relações entre os termos, pois a propaganda é uma das ferramentas usadas pelo marketing na divulgação de produtos e serviços, por exemplo.

Agora, vejamos, então, do que se trata nosso assunto verdadeiramente: ele é uma orientação dinâmica encarregada de dar rumo às ações, uma "filosofia administrativa", um instrumento para ajudar a planejar as condições necessárias para que pessoas e organizações troquem entre si, sendo, também, responsável pelas análises de mercado, tomando por base os pontos fortes e fracos da instituição e o desenvolvimento de produtos e/ou serviços oferecidos, buscando sintonia com as expectativas do público-alvo. Por conseqüência, também cabe a ele o acompanhamento e avaliação dos resultados obtidos, e se é preciso alguma correção de rumo.

O marketing tem como causa o fato das pessoas desejarem atender seus desejos e necessidades por meio do comércio, de trocas no mercado. Para que, efetivamente, o processo aconteça, as partes devem chegar a um acordo. Caso haja concordância entre si, devem concluir que o negócio deixou-as em melhor situação, que ambos os lados saíram ganhando.

Sendo assim, podemos concluir que marketing é o conjunto de atividades humanas destinadas à percepção e posterior satisfação de necessidades e desejos dos clientes, bem como a capacidade da organização em adequar-se para supri-los. Por meio dessa prática, o consumidor sente-se atendido, a empresa garante sua existência e, caso seja realmente bem sucedida, possíveis ampliações de seus negócios.

Mesmo assim, é perceptível que fascinar, fidelizar e acabar por constituir uma marca (“O marketing é a arte de criar marcas”, segundo Philip Kotler) são tarefas mais complexas, apesar de serem condições indispensáveis para o desenvolvimento contínuo de uma instituição em um mercado cada vez mais exigente e sem fronteiras.

Fica evidente que, de todo esse processo, quem sai sempre em vantagem é o consumidor, dono da palavra final em meio a toda essa batalha administrativa por aprimoramentos e caminhos a serem traçados.

Para ler: Marketing para o século XXI; Kotler, Philip.

segunda-feira, junho 06, 2005

Pequeñito, pero cumplidor

Passei a noite de domingo e estava até pouco tempo lendo todos os artigos que encontrei em um site. Literatura, religião, atualidades, enfim, o cardápio foi variado. Não sei o porquê de ter-me sentido atraída por essa empreitada que, inicialmente, parecia que iria apenas agravar minha angústia em ver a montanha de livros* ao meu lado sem serem abertos, mas, acabou por valer a pena, por ter constatado que minha alma ainda não é pequena.

Mudando de assunto, vou ver se escapo da aula mais cedo hoje para comprar "A divina comédia", do genial-e-dispensa-apresentações Dante Alighieri, na recém lançada edição com tradução e notas de Vasco Graça Moura. Saborear novamente cada detalhe de uma das minhas obras favoritas e um marco na cultura mundial será uma grande satisfação.

Mas, afinal, esse post com aparente falta de assunto seria o indício da proximidade de uma maré de falta de inspiração? Não, pois me despeço com a promessa de voltar muito em breve e com mais freqüência daqui por diante. Deixo-os com essa frase, absorvida na calada da noite: "Amar não deve ser entendido de outra forma senão como uma forma de concentrar a alma em algo".

*Livros a serem lidos (lista provisória, porque tende a aumentar):

Pitágoras e o tema dos números - Mário Ferreira dos Santos (thanks, Luís. Depois, mergulhar em A sabedoria das leis eternas);
O jardim das aflições - Olavo de Carvalho (até então, a obra-prima do Olavo e uma obra-prima, assim definida por ele mesmo);
A mulher que amou demais - Nelson Rodrigues (thanks, Aurélia e Lisi. Após, Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo);
Novos ensaios sobre o entendimento humano - Leibniz (o título e o autor já explicam);
Entre os cupins e os homens - Og Francisco Leme (uma pitada de liberalismo sempre faz bem);
Esquerdismo, doença infantil do comunismo - Lenin (uma dose do "ópio dos intelectualóides");
O lobo da estepe - Hermann Hesse (conhecer o autor);
The long goodbye - Raymond Chandler (idem acima);
Ensaio sobre poesia - Ezra Pound (o nazista autor do verso "Uno-me à minha espécie acima das escarpas");
A poesia - Benedetto Croce (idem Hesse e Chandler);
O indivíduo e o Estado - Herbert Spencer (o título é auto-explicativo);
História da filosofia - Julián Marías (visão geral para posteriores vôos mais altos);
A sociedade do espetáculo - Guy Debord (dívida antiga);
Admirável mundo novo - Aldous Huxley (idem acima).

É sintomática a quantidade de obras de administração...


Obs: estou inspirada, sim. Afinal, foi comprovada, nesse final de semana, a existência de uma pessoa capaz de suportar-me (nos dois sentidos da palavra) durante dez horas e meia ininterruptas. É ou não é um bom motivo?

noite_interminavel
Nós nos transformamos naquilo que praticamos com freqüência. A perfeição, portanto, não é um ato isolado, é um hábito. (Aristóteles)


Na medida em que você se desliga do espírito daquela era, está ligado ao espírito de todas as eras. Isto quer dizer que, de fato, na constituição do próprio indivíduo, já está dada toda a dialética entre o mundo do sensível ou da temporalidade e o mundo da eternidade. (Olavo de Carvalho)


Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo. (Hermann Hesse)


Quanto menos um sujeito entende a religião, mais se prontifica a modificá-la, isto é, a reduzi-la às dimensões da sua própria falta de consciência. Uma concepção evolutiva da religião mostra apenas incapacidade de conceber alguma coisa acima da esfera temporal. O "senso da eternidade" é apenas o primeiro grau da consciência religiosa. (Olavo de Carvalho)


Quando os homens já não acreditam em Deus, não é que não acreditem em mais nada: acreditam em tudo. (G. K. Chesterton)


Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada. (Edmund Burke)


Experiência não é o que acontece com o homem; é o que o homem faz com o que lhe acontece. (Aldous Huxley)


Pode-se enganar todo mundo durante algum tempo, e certas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo o mundo todo o tempo. (Abraham Lincoln)


Faça aparecer o que sem você não seria talvez jamais visto. (Robert Bresson)


Educação é o que resta depois de ter esquecido tudo que se aprendeu na escola. (Albert Einstein)


Todos estamos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando as estrelas. (Oscar Wilde)


Qualquer pessoa que não seja inteiramente imbecil ou imbecilizada pelo jogo literário de entes de razão sabe que existe, no mundo inteiro, uma guerra revolucionária com o objetivo de massificar o homem e de apagar nas almas os últimos lampejos das saudades de Deus. Os marxistas desempenham papel de desta­que, e os judeus marxistas ou filocomunistas trazem para esta causa todo o furor que lhes vem da antiga grandeza. (Gustavo Corção)